terça-feira, 28 de novembro de 2017

Perfil: como o drama, o azar, o antijogo e muita polêmica moldam Rodrigo


Perfil: como o drama, o azar, o antijogo e muita polêmica moldam Rodrigo

Ronaldão não podia acreditar em seus olhos. Na televisão do ex-zagueiro, campeão mundial com a Seleção em 1994, a Ponte Preta sofria uma virada do Vitória e via a torcida invadir o gramado, irada. O clube de Campinas, que abrira 2 a 0 no começo do jogo neste domingo, estava rebaixado, e Ronaldão só pensava em uma cena: a expulsão, minutos antes, de um jogador que ele conhecera há muito tempo, naquela cidade, naquele estádio, com aquela camisa. Não podia ser o mesmo Rodrigo.
Mas era. Aos 19 minutos do primeiro tempo no estádio Moisés Lucarelli, o zagueiro Rodrigo Baldasso da Costa, 37 anos, capitão da Ponte Preta, “havia introduzido, por duas vezes, seu dedo médio entre as nádegas de seu adversário”, como relatou a súmula da partida ao justificar a expulsão. Sem ele, a vitória parcial de 2 a 0 virou derrota por 3 a 2. E a Ponte caiu.
               Rodrigo nos tempos de São Paulo (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)
Por trás do momento tragicômico, havia um elemento cíclico: naquele instante, Rodrigo vivia o pior episódio de uma longa e conturbada carreira que começara justamente na Ponte quase duas décadas antes. É como se as duas pontas da trajetória do zagueiro se unissem ali, naquele cartão vermelho tão simbólico para um jogador que colecionou polêmicas, driblou dramas e conquistou títulos.
                 Rodrigo com Leandro, Borges e a taça do Gauchão de 2010 (Foto: Alexandre Alliatti)
– Foi um lance de desequilíbrio que prejudicou a carreira do Rodrigo e a Ponte. Não parecia aquele jogador que vi tão jovem – diz Ronaldão.
A surpresa se justifica. Rodrigo foi, para Ronaldão, um dos últimos companheiros de zaga. E Ronaldão foi, para Rodrigo, o primeiro parceiro de defesa. Era o começo dos anos 2000, e o jovem zagueiro não dava sinais do futuro intempestivo que teria.
- Ele seguia à risca o que eu falava. Era determinado, trabalhador. Trabalhava muito sério. E era bastante tranquilo. Acho que foi mudando ao longo da carreira – opina Ronaldão.
                  Rodrigo no Inter: fora do Mundial e novo problema médico (Foto: Alexandre Alliatti)
Neles, foi remodelando sua personalidade: adquirindo prazer em ser líder de vestiário, criando métodos para desestabilizar atacantes, partindo para ataques públicos contra desafetos.
Rodrigo chegaria aos 37 anos com um histórico de confusões envolvendo quase todos os setores do futebol (colegas, treinadores, dirigentes, torcedores, imprensa) em quase todos os clubes. Em cada camisa que vestia, parecia ter dois caminhos possíveis: ou buscava a polêmica, ou era vitimado pelo corpo.
Dores e copos
Rodrigo estreou como profissional em 6 de fevereiro de 2000. Foi a campo durante o empate por 1 a 1 com a Portuguesa Santista no estádio Ulrico Mursa, em Santos. Tinha 19 anos. E precisava agarrar aquela oportunidade de qualquer jeito.
                  Rodrigo no Vasco: o clube onde teve mais polêmicas (Foto: André Durão / GloboEsporte.com)
Seis anos antes, seu pai deixara a família. Rodrigo, com o tempo, assumiria o posto de chefe da família, cuidando da mãe e da irmã mais nova. Ele precisava do futebol, e a família precisava dele. Era uma necessidade jogar sério, jogar bem.
O rendimento pela Ponte chamou a atenção do São Paulo. Rodrigo chegou ao Morumbi em 2004 e começou a se consolidar como um zagueiro de destaque. Ficou na seleção do prêmio Bola de Prata, da Revista Placar, ao lado de Lugano – o Tricolor teve a melhor defesa do Brasileirão. No ano seguinte, foi campeão paulista, mas não participou das conquistas da Libertadores e do Mundial. Acabou vendido ao Dínamo de Kiev, da Ucrânia.~
                Rodrigo passa a mão no órgão genital de Erazo: tática para irritar os gringos (Foto: André Durão / GloboEsporte.com)
Rodrigo ficou menos de dois anos na Europa. Retornou ao Brasil no fim de 2007, emprestado ao Flamengo. E aí começou a viver uma série de dramas. Em seu primeiro jogo como titular rubro-negro, o zagueiro fraturou o braço direito em uma queda – tivera lesão semelhante em 2004 no São Paulo. Não jogou mais pelo clube. Deixou de receber salários e, insatisfeito, passou a faltar a sessões de fisioterapia. Ainda teve problemas na cicatrização da lesão.
Rodrigo e a lesão nos tempos de Flamengo (Foto: Eduardo Peixoto) Rodrigo e a lesão nos tempos de Flamengo (Foto: Eduardo Peixoto)
Rodrigo e a lesão nos tempos de Flamengo (Foto: Eduardo Peixoto)
E aí o Tricolor abriu novamente as portas para o jogador. E o resultado foi mais uma vez positivo. Rodrigo entrou no time ao longo do Brasileirão e participou ativamente da conquista do tricampeonato nacional, formando trio de zaga com Miranda e André Dias. Estava recuperado.
E tudo ruiu novamente. Em maio de 2009, o jogador conheceu um fantasma que voltaria a assombrá-lo ao longo da carreira. Foi diagnosticado com embolia pulmonar – uma espécie de coágulo no pulmão. Passou uma semana hospitalizado e um mês sem treinar. E deu declarações públicas manifestando descontentamento com a diretoria do São Paulo. “Achei falta de consideração falarem que seria impossível contar comigo novamente”, disse ele. “Não vou ficar onde não me querem”.
Rodrigo com Leandro, Borges e a taça do Gauchão de 2010 (Foto: Alexandre Alliatti) Rodrigo com Leandro, Borges e a taça do Gauchão de 2010 (Foto: Alexandre Alliatti)
Rodrigo com Leandro, Borges e a taça do Gauchão de 2010 (Foto: Alexandre Alliatti)
Pois não ficou. No ano seguinte, estaria no Grêmio, onde recuperaria o bom futebol. Foi campeão gaúcho de 2010 – fez gol no primeiro Gre-Nal da decisão, no Beira-Rio. E assumiu um papel que seria determinante na formação de sua personalidade nos próximos anos: a liderança.
– Eu contratei o Rodrigo para ele ser, junto com o Borges, um líder do elenco. E ele cumpriu essa função. Foi muito importante na conquista do título estadual – lembra Luiz Onofre Meira, ex-diretor de futebol do Grêmio.
– E aí teve aquele problema, é verdade – completa.
O problema: um desentendimento com a nutricionista do Grêmio, que serviu como gota d’água para ele ser afastado pelo clube.
A diretoria já estava insatisfeita com Rodrigo. Via o jogador como desagregador, um líder nocivo. E tudo ruiu de vez na concentração do clube. Por uma bobagem: Rodrigo pediu para beber refrigerante no jantar; a nutricionista disse que ele deveria beber suco. E aí há diferentes versões para o desenlace da história. Profissionais do Grêmio, na época, disseram que Rodrigo arremessou um copo na nutricionista. Ele negou: alegou que, na discussão, batera acidentalmente em um copo, que se espatifara no chão.
Naquela época, Rodrigo lidava com uma barra pesada. Sua mãe estava com câncer terminal. Ele foi dispensado de alguns treinos para visitá-la no hospital. Foi ao voltar de uma dessas visitas que ocorreu o episódio do copo. Dias depois, sua mãe morreu.
Rodrigo foi dispensado pelo Grêmio. Mas não trocou de cidade. Foi logo acionado pelo Inter, que se preparava para a disputa do Mundial de Clubes. A ideia era inscrever Rodrigo, mas ele foi registrado fora do período de transferências internacionais – ainda pertencia ao Dínamo de Kiev. A Fifa não liberou sua presença, e ele não viajou para Abu Dhabi.
Rodrigo no Inter: fora do Mundial e novo problema médico (Foto: Alexandre Alliatti) Rodrigo no Inter: fora do Mundial e novo problema médico (Foto: Alexandre Alliatti)
Rodrigo no Inter: fora do Mundial e novo problema médico (Foto: Alexandre Alliatti)
O problema burocrático era mais um revés na vida de Rodrigo. Mas acabaria perdendo importância no ano seguinte, quando veio nova pancada. O zagueiro era titular, tinha comportamento discreto no vestiário, parecia estar com a cabeça no lugar, disposto a apagar a imagem que deixara no rival. E foi novamente diagnosticado com embolia pulmonar. Não jogou mais pelo clube colorado.
Auge das polêmicas
A carreira de Rodrigo corria risco. Mas o Vitória resolveu apostar nele. Fez uma série de exigências médicas e só assinou contrato depois de analisar os exames. Em campo, o atleta não apresentou problemas. Mas fora dele, sim.
Ao saber que não seria relacionado pelo técnico Paulo César Carpegiani para um jogo contra o ASA, pela Série B, o jogador se aproximou dos jornalistas que estavam assistindo ao treino e disse que gostaria de dar entrevista para explicar a ausência no jogo. “Tenho muito o que falar”, afirmou. A diretoria tomou conhecimento do episódio e decidiu rescindir o contrato do atleta.
Ele foi para o Goiás, onde teve bom desempenho em 2013. E então acertou transferência para o Vasco. No clube carioca, viveria o pico de suas polêmicas, alicerçado na conquista imediata de liderança e na boa relação com a diretoria – virou amigo pessoal de Eurico Brandão, o Euriquinho, vice-presidente de futebol do clube e filho de Eurico Miranda.
Rodrigo no Vasco: o clube onde teve mais polêmicas (Foto: André Durão / GloboEsporte.com) Rodrigo no Vasco: o clube onde teve mais polêmicas (Foto: André Durão / GloboEsporte.com)
Rodrigo no Vasco: o clube onde teve mais polêmicas (Foto: André Durão / GloboEsporte.com)
A força no vestiário foi levada para dentro de campo. Rodrigo, não por acaso, teve rusgas com os protagonistas dos principais rivais do Vasco. Desentendeu-se com Fred, do Fluminense, e depois o provocou na saída de campo, após vitória por 2 a 1 pelo Brasileirão de 2015.
– Está aí um presentinho para ele. É um cara que se sente incomodado, não sabe jogar contra um defensor como eu, que marca em cima, marca forte – disse.
Após vitória, Rodrigo ironiza Fred e rebate Juninho Pernambucano
E também teve problemas com Guerrero, do Flamengo. Em um clássico em 2016, trocou empurrões com o peruano, deu beliscões e chegou a passar a mão no órgão genital do adversário. Em troca, levou uma cotovelada.
Guerrero e Rodrigo se estranham e jogador do Flamengo leva amarelo, aos 18 do 1º tempo
Rodrigo, com o tempo, foi criando uma espécie de método para marcar seus adversários mais fortes. Contra Fred, ele tinha convicção de que o corpo-a-corpo fazia o centroavante se irritar e sair do jogo. Com outros, apelava para o antijogo, passando a mão neles para tentar irritá-los.
Curiosamente, acostumou-se a apostar nisso sobretudo com estrangeiros. Fez com Guerrero, fez com Erazo, quando o equatoriano estava no Grêmio, e fez com Tréllez no lance deste domingo. Achava que conseguiria fazer os gringos perderem a cabeça e serem expulsos. Ironicamente, foi ele quem levou o vermelho no jogo decisivo pela Ponte.
Acontece que Rodrigo, conforme foi avançando na carreira, passou a se achar um jogador malandro. Considerava-se mais esperto do que a maioria. E resolveu usar isso em campo.
– O Rodrigo é um cara legal. Ele é gente boa, tem boa conversa. Mas se acha malandro. Só que ele não percebe que é um malandro tonto – resumiu uma pessoa que foi da convivência de Rodrigo e pediu para não ser identificada.
No Vasco, as confusões de Rodrigo dentro de campo logo saíram das fronteiras das quatro linhas. Alguns jogadores do elenco, especialmente jovens, passaram a desconfiar de sua postura. E treinadores também começaram a ficar atentos a isso. Ele teve um desentendimento com Jorginho em 2016, mas foi mantido no time. E não teve a mesma sorte com Milton Mendes.
O treinador tinha carta branca para fazer mudanças no elenco, e isso incluía tirar Rodrigo. Nos primeiros dias no clube, o novo comandante teve uma conversa com o zagueiro em sua sala. E escutou que os atletas mais experientes já sabiam o que fazer, já sabiam como eram os treinamentos. Ele interpretou aquilo como uma tentativa de imposição de Rodrigo.
Depois do Campeonato Carioca do ano passado, o zagueiro foi comunicado pelo gerente de futebol do Vasco, Anderson Barros, que o clube tinha interesse em rescindir seu contrato – o que abriu caminho para o retorno à Ponte. Na época, Rodrigo foi procurar Milton Mendes, que teria dito não saber de nada. Aquela conversa não terminaria ali.
Em agosto deste ano, quando Milton Mendes foi demitido do Vasco, Rodrigo postou um vídeo em uma rede social gargalhando. Era sua forma de celebrar o insucesso do treinador. Ali, eles já eram inimigos declarados.
Dias antes, haviam trocado empurrões. Após empate por 0 a 0 entre Ponte e Vasco, o treinador se aproximou do zagueiro para cumprimentá-lo. E foi empurrado por Rodrigo.
– Deve ser dor de cotovelo por não estar mais no Vasco – disse o treinador na época.
Confusão entre Rodrigo e Milton Mendes marca jogo entre Vasco e Ponte Preta
A queda
Quando apresentou Rodrigo, no dia 19 de maio, a Macaca anunciou em seu site: “O Xerife agora é da Ponte Preta”. Cinco meses depois, a relação seria outra. O zagueiro deixaria o Moisés Lucarelli às pressas, ainda durante o jogo contra o Vitória, aconselhado por pessoas do clube - que temiam a reação dos outros jogadores no vestiário. No momento da expulsão, seu colega de zaga, Luan Peres, esbravejara contra ele dentro de campo.
Rodrigo tem contrato com a Ponte Preta até dezembro de 2018. Nos próximos dias, deverá negociar sua rescisão. E precisará decidir se tenta seguir no futebol ou se permite que o último momento de sua carreira seja, como disse a súmula, a introdução “de seu dedo médio entre as nádegas do adversário”.
*Colaboraram Felipe Schmidt, Guilherme Gonçalves, Lucas Strabko, Murilo Borges e Thiago Pereira
GE

tags

0 comentários:

Postar um comentário