Ana Paula foi indiciada pela Corregedoria da Polícia Civil por prevaricação, por ter entregado sua arma profissional, em momentos anteriores ao crime, ao marido. Além disso, durante as investigações, ela também foi indiciada por porte ilegal de arma de fogo, no entendimento da Lei de Desarmamento por ter cedido ou emprestado sua pistola de uso pessoal para o companheiro.
As investigações mostraram ainda que a servidora do governo de Minas Gerais permitia e tinha ciência que Renê usava sua pistola de uso pessoal.
Durante a denúncia de Renê à Justiça, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) pediu que o processo contra a delegada fosse desmembrado. A medida foi acatada pela juíza Ana Carolina Rauen, sumariante do 1º Tribunal do Júri de Belo Horizonte.
Com o desmembramento, uma cópia do processo da delegada foi remetida para uma das varas criminais da capital, que tem competência para processar e julgar crimes comuns. As infrações imputadas a ela possuem penas mínimas que não ultrapassam quatro anos e cometidas sem violência ou grave ameaça, o que dá a possibilidade de ela fazer um Acordo de Não Persecução Penal.Na sequência, ele segue adiante, estaciona, sai do carro armado; derruba o carregador, recolhe e engatilha pistola, segundo o registro policial.
Desde a morte de Laudemir, a Corregedoria da PCMG instaurou um procedimento administrativo para investigar a participação da delegada no crime. No dia, Ana Paula foi levada até a sede do órgão correcional para ser ouvida em relação ao uso de sua arma pessoal no possível crime. Na ocasião, segundo repassado à imprensa pelo porta-voz da corporação, o delegado Saulo Castro, a servidora afirmou que o marido não tinha acesso aos dois artefatos. Além disso, a delegada disse que não tinha nenhuma informação em relação ao crime em que o companheiro foi preso por suspeita de participação.
Porém, ao longo das investigações ficou confirmado que a servidora sabia que o marido tinha envolvimento com o crime antes de sua prisão no fim da tarde de 11 de agosto. A informação consta na conclusão do inquérito que tramitou na 4ª Subcorregedoria da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), que o Estado de Minas teve acesso. A Justiça decretou sigilo às informações do documento em 23 do mesmo mês.
Durante o inquérito, os investigadores, por meio de análises do aparelho celular, conseguiram confirmar que a delegada sabia que Renê era suspeito do crime, mas não acionou a polícia nem o prendeu. Conforme o documento, Ana Paula fez 29 pesquisas na plataforma de Registro de Eventos de Defesa Social (REDS), onde estão boletins de ocorrências em andamento e finalizados. As consultas, ainda segundo as análises, aconteceram das 10h30 às 13h20. Dentre os filtros usados pela delegada estavam seu nome, a placa do carro utilizada pelo marido e os nome de Renê e da vítima.
Além disso, ao longo das investigações sobre a morte de Laudemir, a PCMG não conseguiu confirmar se a delegada sabia, ou não, que o marido matou uma pessoa a caminho do trabalho. Durante coletiva de imprensa, após a conclusão do inquérito criminal, o delegado Matheus Moraes, afirmou que no dia do crime diversas mensagens trocadas entre os dois foram excluídas e eles teriam passado a se comunicar por ligação via aplicativo de mensagem.
“Há várias mensagens apagadas no celular dele, e isso dificultou essa conclusão da ciência dela, ou não, da prática criminosa. Porém, alguns áudios foram recuperados, o que possibilitou que chegássemos à conclusão que ela tinha ciência do porte de arma”, destaca.
No entanto, durante as investigações na casa corregedora, os policiais conseguiram recuperar que às 14h37, Ana Paula mandou um print de uma matéria publicada por um veículo de imprensa de BH com imagens do carro usado pelo suspeito de matar o gari. Em seguida, o homem liga para a esposa, e os dois conversam por cerca de sete minutos.
Contato com o marido
De acordo com a conclusão do inquérito na casa corregedora, no dia dos fatos, Ana Paula ligou para o marido 23 vezes entre as 9h18 - nove minutos depois que Laudemir foi baleado às 9h09, na Rua Modestina de Souza, no Bairro Vista Alegre, na Região Oeste de Belo Horizonte - e às 16h33, momentos antes da prisão do principal suspeito Renê da Silva Nogueira Júnior, marido da delegada. Dos contatos, apenas seis não foram atendidos pelo empresário.
Durante o depoimento prestado logo depois de sua prisão em flagrante, Renê relatou que ligou para a esposa na manhã do dia 11 de agosto, por volta das 8h40, informando que o trânsito estava ruim. Segundo ele, a próxima ligação teria ocorrido às 14h, quando avisou que tinha saído para passear com os cachorros. Por fim, Renê disse ter entrado em contato novamente com a esposa assim que foi abordado pelos policiais militares.
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Pesquisas
Além de ter acompanhado o andamento dos registros de ocorrência, no dia do crime, Ana Paula contou para seu irmão que desconfiava que o marido estaria envolvido no homicídio, fato confirmado pelo familiar da servidora em depoimento à 4ª Subcorregedoria da PCMG.
Conforme informações adquiridas pela instituição, após quebra do sigilo telefônico de Ana Paula, e anexadas ao inquérito policial, por volta das 15h, o irmão da servidora lhe enviou o link de uma matéria de um veículo de comunicação da capital sobre o crime. Momentos antes, os dois haviam conversado por telefone.
Ao ser intimado pela corporação, o homem ressaltou que ligou para a irmã para falar de outro assunto e para “sondar” se o carro dela, da marca BYD, seria o mesmo que aparecia em uma reportagem sobre a morte de Laudemir. Na ligação, segundo o depoente, Ana Paula disse estar atordoada e tentava apurar se Renê estava envolvido, ou não com o fato. Os dois voltaram a se falar mais tarde, mas a delegada já sabia que o marido havia sido abordado pela PMMG.
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Diante das informações a Corregedoria da PCMG indiciou a delegada por suposta prática de prevaricação. Conforme o Código Penal, o crime acontece quando um funcionário público retarda ou deixa de praticar um ato de ofício por motivo de interesse. Ao Estado de Minas, o advogado de Ana Paula, Leonardo Avelar Guimarães, ressaltou que devido ao estado de saúde da servidora, não foi possível o “exercício efetivo do seu direito de defesa no referido inquérito”.
“O mérito dessa conclusão será discutido oportunamente, assim como outras questões já publicizadas. Ela (Ana Paula) não teve condições de esclarecer pessoalmente os fatos investigados pela Corregedoria em razão do seu estado atual”, declarou o defensor.
FONTE: https://www.msn.com/pt-br/channel/source/EM.com

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