terça-feira, março 24, 2026

Câncer de estômago afeta milhares de homens e costuma ser descoberto tarde demais


Um desconforto depois das refeições, uma queimação que vai e volta, a sensação de estômago cheio mesmo quando se comeu pouco. Para a maioria das pessoas, esses sinais não passam de uma gastrite mal tratada ou de consequência do estresse do dia a dia.

É exatamente essa semelhança com problemas digestivos corriqueiros que transforma o câncer gástrico em uma das doenças oncológicas mais traiçoeiras do país. Quando os sintomas se tornam evidentes o suficiente para levar o paciente ao consultório, o tumor já ultrapassou, em muitos casos, os limites do estômago.

Os números mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA), divulgados em fevereiro de 2026, estimam que o Brasil terá 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028.

Desse total, o tumor de estômago responde por 5,4% dos diagnósticos masculinos, ocupando a quarta posição entre os tipos mais incidentes em homens, atrás apenas dos cânceres de próstata, cólon e reto e pulmão. Nas regiões Norte e Nordeste, a incidência é proporcionalmente maior do que no restante do país, segundo o próprio INCA.

Vitória da Conquista, no sudoeste baiano, conhece de perto esse problema. A cidade se consolidou como polo de saúde de referência para mais de 70 municípios do centro-sul da Bahia e do norte de Minas Gerais, com unidades de alta complexidade em oncologia credenciadas pelo Ministério da Saúde.

Pacientes que antes precisavam viajar até Salvador para iniciar o tratamento contra o câncer hoje encontram atendimento na região. Mesmo assim, o diagnóstico tardio continua sendo o principal obstáculo ao sucesso terapêutico.

Sintomas silenciosos e confusão com gastrite

O adenocarcinoma gástrico, responsável por cerca de 95% dos tumores malignos do estômago, se desenvolve de forma lenta, ao longo de anos. Antes de se tornar câncer, a mucosa do órgão passa por uma sequência de alterações: gastrite crônica, atrofia, metaplasia intestinal e displasia. Durante grande parte desse processo, o paciente não apresenta nenhum sinal claro da doença.

“Quando os primeiros incômodos aparecem, eles se confundem com queixas digestivas comuns. Perda de apetite, azia persistente, sensação de saciedade precoce e dor na região acima do umbigo são relatados por quem tem gastrite, refluxo e até quadros de ansiedade. A tendência natural é automedicar-se com antiácidos e adiar a consulta”, destacou um médico especialista em tratamento de câncer em Goiânia.

Segundo levantamento do A.C. Camargo Cancer Center, um dos principais centros oncológicos do país, 66,4% dos casos de câncer de estômago são diagnosticados em estágios avançados (estádios 3 e 4).

A sobrevida em cinco anos para quem descobre o tumor no estádio 4 cai para 14%, enquanto pacientes diagnosticados no estádio 0 alcançam taxa de sobrevida de 90%.

Essa diferença entre o diagnóstico precoce e o tardio mostra a importância de investigar sintomas digestivos que persistem por mais de duas ou três semanas, especialmente em pessoas acima de 50 anos.

A endoscopia digestiva alta é o exame que permite ao gastroenterologista visualizar o interior do estômago e, quando necessário, colher material para biópsia.

Helicobacter pylori: a bactéria que potencializa o risco

Entre os fatores que aumentam a probabilidade de desenvolver câncer gástrico, a infecção crônica pela bactéria Helicobacter pylori é o mais relevante.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o micro-organismo como carcinógeno do Grupo 1, ou seja, com evidência suficiente de associação com o câncer em humanos. Estudos indicam que cerca de 80% dos casos de câncer de estômago têm relação com a presença da H. pylori.

No Brasil, a prevalência da bactéria é alta e desigual. A média nacional gira em torno de 60% a 71% da população adulta, conforme dados publicados em periódicos indexados na SciELO e no Consenso Brasileiro sobre H. pylori.

Em regiões com menor cobertura de saneamento básico, especialmente no Norte e no Nordeste, esses índices podem chegar a 90%. A via de transmissão mais comum é a fecal-oral, pela ingestão de água ou alimentos contaminados, o que torna a infecção diretamente ligada às condições sanitárias locais.

O sudoeste baiano, apesar dos avanços na infraestrutura de saúde registrados nos últimos anos, ainda enfrenta desafios de saneamento em parte dos seus municípios.

Para a população dessa região, tratar a H. pylori quando diagnosticada é uma medida preventiva que vai além do alívio dos sintomas da gastrite: interrompe um processo inflamatório crônico que, em uma parcela dos casos, pode evoluir para lesões pré-cancerosas.

A importância do diagnóstico precoce no interior do Nordeste

Na capital baiana e em centros urbanos maiores, o acesso a exames como a endoscopia tende a ser mais ágil. No interior, porém, a realidade é diferente.

A espera por um procedimento diagnóstico pelo SUS pode levar meses, e muitos pacientes desistem ou só retornam quando os sintomas se tornam incapacitantes. É nesse intervalo que tumores potencialmente curáveis se transformam em doenças avançadas.

Vitória da Conquista tem ampliado a capacidade de atendimento oncológico, com a estruturação de Unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacons) que oferecem quimioterapia, radioterapia e cirurgias oncológicas.

A cidade atende pacientes que percorrem centenas de quilômetros em busca de tratamento. Apesar disso, o gargalo não está apenas no tratamento, mas no passo anterior: a suspeita clínica que leva ao exame certo, no momento certo.

Médicos da região relatam que parte dos pacientes com câncer gástrico chega ao serviço especializado após meses de queixas tratadas apenas com medicamentos para gastrite.

Quando o encaminhamento para a endoscopia finalmente acontece, o tumor já comprometeu camadas profundas do estômago ou atingiu linfonodos próximos.

Segundo dados do SEER, o programa de vigilância epidemiológica do Instituto Nacional de Câncer dos Estados Unidos, a taxa de sobrevida em cinco anos cai de 75% nos casos localizados para apenas 7% quando já há metástase à distância. No Brasil, onde o diagnóstico costuma ser ainda mais tardio, esses números podem ser piores.

Quem deve ficar atento

Dr. Thiago Tredicci, especialista em cirurgia do aparelho digestivo que exerce a medicina em Goiânia, relata que embora o câncer de estômago atinja predominantemente homens acima de 50 anos, outros grupos também precisam de atenção.

Pessoas com histórico familiar de câncer gástrico, portadores de gastrite atrófica, fumantes, indivíduos com alto consumo de alimentos defumados, ultraprocessados ou com excesso de sal e, especialmente, quem já teve diagnóstico positivo para H. pylori fazem parte do grupo de risco.

A Sociedade Brasileira de Cancerologia reforça que a investigação deve ser mais rigorosa quando o paciente apresenta mais de um fator de risco simultaneamente.

Um homem de 55 anos, fumante, morador de uma região com alta prevalência de H. pylori e que consome regularmente charque e alimentos em conserva tem uma combinação de fatores que merece acompanhamento médico regular, mesmo na ausência de sintomas.

É nessa etapa que a busca por tratamento se torna uma decisão relevante para o paciente. Profissionais capacitados para interpretar corretamente os sinais de alerta e solicitar os exames adequados fazem diferença entre um diagnóstico precoce, com chances reais de cura, e a descoberta tardia do tumor.

Como o tratamento funciona

O tratamento do câncer de estômago depende do estágio da doença no momento do diagnóstico. Em fases iniciais, a cirurgia é o principal recurso. A gastrectomia (retirada parcial ou total do estômago) pode ser curativa quando o tumor ainda está restrito ao órgão.

Em muitos casos, os médicos indicam quimioterapia perioperatória, ou seja, antes e depois da cirurgia, para aumentar as chances de eliminação completa das células cancerígenas.

Para tumores avançados, o tratamento combina quimioterapia com terapias-alvo e, em alguns casos, imunoterapia. Nos últimos anos, avanços como o uso de medicamentos direcionados ao receptor HER2 e de imunoterápicos ampliaram as opções para pacientes que antes tinham poucas alternativas.

Essas terapias não curam a doença na maioria dos casos avançados, mas podem prolongar a sobrevida e melhorar a qualidade de vida do paciente.

A radioterapia também tem papel em situações específicas, sobretudo quando o tumor não pôde ser completamente removido pela cirurgia.

Em Vitória da Conquista, as Unacons credenciadas já oferecem serviços de radioterapia, evitando que pacientes da região tenham que se deslocar para Salvador para dar continuidade ao tratamento.

O que pode ser feito agora

A prevenção do câncer de estômago não depende de tecnologias caras ou tratamentos inovadores. Para o especialista na saúde digestiva, ela passa por medidas que estão ao alcance da atenção primária: testar e tratar a infecção por H. pylori, especialmente em regiões com alta prevalência; investigar sintomas digestivos persistentes em vez de tratá-los apenas com antiácidos; ampliar o acesso à endoscopia como exame de rastreamento para populações de risco; e orientar a população sobre a relação entre alimentação, saneamento e câncer gástrico.

A estimativa do INCA para o triênio 2026-2028 reforça que o câncer é um problema crescente no Brasil, impulsionado pelo envelhecimento da população e por desigualdades regionais no acesso à saúde.

Para o câncer de estômago, especificamente, a diferença entre vida e morte está, quase sempre, no tempo que se leva entre o primeiro sintoma e o diagnóstico correto. Num país onde a maioria dos casos é descoberta tarde, encurtar esse intervalo é a medida mais urgente.

Em cidades como Vitória da Conquista, que já reúne estrutura hospitalar de alta complexidade, o próximo passo é fortalecer a rede de atenção básica para que os pacientes cheguem ao oncologista com o diagnóstico em mãos, e não apenas com a doença já instalada.

F.Blog do Valente

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