terça-feira, março 31, 2026

Sequestro no shopping: o maníaco em saída temporária e a morte da médica que assombrou Salvador


Um passeio no shopping para compras de Dia dos Pais se transformou na rota da morte de Rita de Cássia Tavares Giacon Martinez, 39, uma mãe que foi raptada com a filha de um ano no dia 6 de agosto de 2009, no estacionamento do Iguatemi. O sequestro deu início a uma investigação que acabou na descoberta do “maníaco do shopping”, que assombrou Salvador.

O caso ganhou repercussão nacional após a identificação do autor do crime. Gilvan Cléucio de Assis, preso por sequestrar, tentar estuprar e matar Rita, também circulava no shopping por causa do Dia dos Pais. No entanto, a presença dele no local não se deu pela procura de presentes, mas pela saída temporária da prisão, concedida na data.

Médica foi sequestrada e morta no crime

Na manhã de 6 de agosto de 2009, Rita, de 39 anos, aproveitava uma folga para fazer compras no shopping ao lado da filha, de apenas 1 ano e 8 meses. Imagens de câmeras de segurança mostram que ela foi seguida por Gilvan pelos corredores e pelo estacionamento do centro de compras.

O criminoso havia deixado a Colônia Penal Lafayete Coutinho, em Castelo Branco, no dia anterior. Condenado por estupro, assalto e atentado violento ao pudor, ele já tinha histórico de ataques semelhantes, inclusive em estacionamentos da própria região do Iguatemi.

As imagens registraram o momento em que Rita chega ao carro no estacionamento, coloca as compras no veículo e acomoda a filha na cadeirinha. Pouco depois, o homem se aproxima, observa o entorno e inicia a abordagem. Em questão de minutos, a médica é rendida e levada junto com a criança no próprio carro.

Criminoso foi descoberto através de câmeras de segurança

Sequestro e morte na BR-324

Após deixar o shopping dirigindo o veículo da vítima, Gilvan seguiu em direção à BR-324. Em uma área de mata, na região de São Sebastião do Passé, a médica foi retirada do carro.

As investigações e os laudos periciais indicaram que Rita foi agredida e sofreu tentativa de violência sexual. Havia sinais de luta corporal, socos e tentativa de estrangulamento.

Em seguida, ela foi atropelada mais de uma vez. As marcas encontradas no corpo — na cabeça e no tórax — mostraram que o veículo passou repetidamente sobre a vítima, em um movimento de ida e volta.

A filha da médica foi deixada viva dentro do carro, que acabou abandonado horas depois na BR-324. O corpo de Rita foi localizado em uma estrada de terra próxima à cidade de Santo Amaro, a cerca de 12 quilômetros de distância do veículo.

Investigação muda rumo

Nos primeiros momentos, a polícia chegou a trabalhar com hipóteses como sequestro ou crime encomendado. No entanto, a análise das imagens do shopping mudou completamente a linha de investigação.

O circuito interno revelou todo o trajeto do suspeito, desde a entrada no centro de compras até a saída com o carro da vítima. A partir daí, investigadores cruzaram as imagens com registros antigos e identificaram semelhanças com crimes ocorridos anos antes envolvendo o mesmo autor.

Gilvan Cléucio de Assis foi preso no dia 11 de agosto, cinco dias após o crime, no momento em que retornava à Colônia Penal Lafayete Coutinho para se reapresentar após a saída temporária. A captura foi possível após denúncias e informações que indicavam que ele havia sido visto com o carro da vítima.

Em depoimento, o criminoso confessou o sequestro e a morte da médica. Ele afirmou que pretendia cometer um roubo, mas entrou em contradição ao negar a tentativa de estupro — hipótese reforçada por evidências periciais.

Gilvan Cleucio foi preso cinco dias após o crime

Frieza após o crime

Um dos pontos que mais chocaram investigadores foi o comportamento do autor após o assassinato. De acordo com o próprio depoimento, após abandonar o carro e a criança, ele retornou a Salvador, voltou ao shopping onde havia cometido o crime, fez compras e jantou com a namorada.

A sequência de ações foi apontada por especialistas como indicativo de frieza extrema e ausência de empatia. Horas depois de participar da reconstituição do crime, ainda em agosto de 2009, Gilvan foi encontrado morto dentro da Delegacia de Homicídios.

Segundo a polícia, ele se enforcou na cela onde estava custodiado. A morte encerrou a possibilidade de julgamento e deixou sem resposta judicial definitiva um dos crimes mais violentos registrados na capital baiana.

Comoção e repercussão

A morte de Rita de Cássia provocou forte comoção entre colegas, pacientes e familiares. Médica dedicada, ela trabalhava havia anos no atendimento à comunidade do Nordeste de Amaralina e também atuava em unidades hospitalares da capital.

No dia seguinte à confirmação da morte, o posto de saúde onde trabalhava chegou a suspender o atendimento por falta de condições emocionais dos funcionários.

Descrita como uma profissional atenciosa e querida, Rita deixou o marido e uma filha pequena — que sobreviveu ao crime. O corpo foi levado para o interior de São Paulo, onde foi sepultado.

Caso marcou Salvador

O episódio ficou conhecido como o caso do “maníaco do shopping” e passou a simbolizar o medo em espaços considerados seguros, como centros comerciais.

Além da brutalidade, o crime levantou questionamentos sobre o sistema de saídas temporárias e o monitoramento de presos com histórico de violência.

Mais de uma década depois, o assassinato da médica ainda é lembrado como um dos casos mais chocantes da história recente de Salvador — pela crueldade, pela frieza do autor e pelas circunstâncias em que tudo aconteceu.

CORREIO

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