Em uma rua aparentemente pacata de Itapuã, a movimentação intensa de veículos em frente a uma casa chamou a atenção da vizinhança e da Polícia Civil. O imóvel, porém, estava longe de abrigar um ambiente familiar: funcionava ali um centro de distribuição do Bonde do Maluco (BDM), uma das facções mais violentas da Bahia.
No local funcionava um laboratório de produção e refino de drogas. Ao todo, meia tonelada de entorpecentes foi apreendida, causando um prejuízo estimado em R$ 2 milhões para a organização criminosa.
De acordo com as investigações, a escolha de Itapuã não foi aleatória. O BDM tem seguido a estratégia de ocupar bairros da orla e áreas de classe média para ampliar a logística, facilitar a circulação de dinheiro e reduzir suspeitas sobre imóveis usados como depósitos e refinarias.
Além disso, Itapuã possui localização estratégica, próxima à Avenida Paralela, à orla atlântica, ao Aeroporto Internacional e às saídas para Lauro de Freitas e demais cidades da Região Metropolitana de Salvador (RMS). “Eles pulverizavam, entregavam para Salvador toda”, afirmou o diretor adjunto do Departamento Especializado de Investigações Criminais (Deic), delegado Raphael Dunice.
Outro fator apontado pela polícia é a existência de muitas casas de aluguel, imóveis de veraneio e áreas onde o controle territorial do tráfico ocorre de forma menos ostensiva do que em bairros historicamente dominados por facções.
O BDM já possui atuação consolidada em bairros da orla e regiões próximas, especialmente em áreas de disputa com o Comando Vermelho (CV). Entre os locais associados à presença da facção estão Itapuã, São Cristóvão, Jardim das Margaridas, Bairro da Paz, Mussurunga, Stella Maris, Praia do Flamengo e Piatã.
Em algumas dessas regiões, o domínio muda constantemente devido às guerras entre BDM, CV e grupos independentes. Itapuã, por exemplo, já foi alvo de operações para desmontar estruturas logísticas do tráfico. Em outubro de 2024, forças de segurança desarticularam um laboratório de drogas no bairro e apreenderam dois fuzis, além de cerca de 150 quilos de entorpecentes. Já em julho de 2025, policiais localizaram um bunker usado para refino e armazenamento de drogas no Km 17, com mais de 70 quilos de cocaína e maconha.
Casa
O centro de distribuição descoberto agora funcionava na Rua Vicente Ferreira de Magalhães. “A casa era alugada só para isso, há pelo menos seis meses”, disse o delegado. Segundo ele, os policiais chegaram quando drogas eram descarregadas de um Ford Focus branco e de uma motocicleta para distribuição.
Parte da carga estava espalhada em sacos e caixas por toda a residência. Até a única geladeira do imóvel era usada para armazenar entorpecentes.
Quatro pessoas foram presas: Gabriel Reis Oliveira, apontado como gerente de distribuição; Matheus de Sena Faustino; Matheus Souza Bonfim; e Kaian Miguel Santos Almeida Pimentel. Gabriel e Matheus Faustino já haviam sido presos anteriormente por tráfico de drogas.
“Um dos presos era motorista por aplicativo. Ele fazia entregas para a facção. Disse que fazia o transporte, mas que a droga não era dele”, contou Raphael Dunice.
F. CORREIO

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