segunda-feira, janeiro 26, 2026

HAVAÍ: Baiana de 18 anos faz história ao surfar Jaws, uma das ondas mais temidas do mundo


A cena é conhecida entre surfistas de ondas gigantes, mas inédita quando protagonizada por uma jovem sul americana. Diante de uma parede de água em Maui, no Havaí, Catarina Lorenzo respirou fundo, remou contra o medo e escreveu um novo capítulo para o surfe brasileiro. Aos 18 anos, a baiana de Salvador se tornou a mulher mais nova da América do Sul a surfar Jaws, considerada uma das ondas maiores e mais desafiadoras do planeta.

“Eu sempre sonhei em surfar essa onda. Cresci assistindo meus tios, meu padrinho e meu pai surfando lá. O que tornou tudo ainda mais especial foi saber que Jaws era um dos lugares favoritos do meu tio Marcinho”, contou a surfista, emocionada. Catarina ainda está no Havaí.

A conexão afetiva com o pico se misturou à intensidade da experiência. Ela descreve o momento como algo que vai além do esporte. “A maior sensação que eu tive foi gratidão. Não só por estar surfando aquela onda, mas pela experiência completa do dia. Quando você vê Jaws pela primeira vez, é como se fosse uma montanha de água vindo na sua direção. Seu corpo quer fugir, porque parece que você está em perigo. Mas dentro de você tem algo que diz que você não está. Aí você entende que precisa controlar aquela situação.”

O vento forte em Maui, conhecido por tornar o surfe ainda mais desafiador, também testou os limites da baiana. “O vento levantava tanto eu quanto a prancha. À tarde consegui pegar várias ondas e senti essa energia da onda. É um ponto de energia concentrada, muito forte. Quando você sente isso, você entende todas as histórias que as pessoas contam sobre Jaws”, relatou. O feito aconteceu na semana passada.

A presença de Catarina em Jaws é resultado de uma trajetória construída aos poucos no surfe de ondas grandes. A atleta já passou por treinos intensos, encarou picos como Nazaré, em Portugal, e carrega aprendizados de uma geração de surfistas que abriu caminhos para brasileiros em mares extremos.

Um dos nomes centrais dessa história é o tio Marcinho, já falecido, que teve papel decisivo na formação da atleta. “Ele foi quem me introduziu na remada em Nazaré. Eu tinha 15 anos. Quem é o doido que teria coragem de levar uma menina de 15 anos para surfar ondas grandes? Ele confiou em mim, acreditou em mim. Isso marcou muito minha vida.”

Catarina também relembra ensinamentos técnicos e espirituais herdados desse convívio. “Ele me contou uma técnica que aprendeu com o Iron Gold, de mergulhar fundo antes de entrar na água para equalizar a pressão. Quando eu sentei lá fora em Jaws, eu senti a energia dele. Mesmo intimidada, eu sabia que tinha um anjo da guarda cuidando de mim.”

Além do desafio esportivo, a surfista destaca o peso simbólico de sua presença em um ambiente historicamente dominado por homens. “Foi muito especial vir como uma mulher brasileira, uma menina da Bahia. O esporte está abrindo portas para as mulheres, mas ainda existem desafios. Aqueles comentários do tipo ‘você surfa bem para uma menina’ ainda existem.”

Em Maui, no entanto, ela encontrou incentivo. “Eu senti que a comunidade é aberta, eles incentivam uns aos outros, incentivam as meninas. Quanto mais mulheres estiverem na água, mais essa desigualdade vai diminuir.”

Catarina também ressalta a importância de representar uma nova geração baiana no surfe de ondas gigantes. “A maioria dos representantes baianos em Jaws sempre foram homens. Saber que eu sou dessa nova geração e que sou uma mulher fala muito. Mostra que a gente chegou num ponto da sociedade em que as mulheres estão ocupando espaço.”

Para ela, o caminho foi aberto por quem veio antes. “Assim como meus tios abriram espaço para brasileiros e baianos fazerem história em Jaws, eu espero abrir espaço para mais meninas e mulheres brasileiras fazerem o mesmo.”

Além de atleta, Catarina se posiciona como ativista e levanta reflexões sobre gênero, clima e desigualdade no esporte. “Não existe limite, o limite é algo que a gente impõe a nós mesmos. Mas também não dá para romantizar. Existem desafios reais, principalmente quando falamos de raça e gênero. Uma menina negra enfrenta muito mais barreiras do que uma menina branca.”

Segundo a surfista, a mudança começa na mentalidade. “Se a sociedade tenta te tratar como inferior, você não pode se tratar assim. A natureza é de todos. O mar é de todos. E esse todos inclui meninas e jovens baianas.”

Mesmo com o feito histórico, Catarina vê a experiência em Jaws como apenas o começo. “Eu atingi um sonho, mas esse é o primeiro passo. Hoje eu falo que quero pegar um tubo em Jaws na remada. Agora eu sei como a onda funciona, onde me posicionar, como ela quebra em diferentes swells. Isso só se aprende indo lá.”

Os próximos passos incluem mais treinos físicos, preparação mental e ajustes de equipamento. “Agora que eu senti o tipo de intimidação, o tipo de medo, eu sei melhor como me preparar. Não dá para pular etapas. É passo a passo.”

Ao dropar Jaws, Catarina Lorenzo não venceu apenas uma onda. A baiana reforçou a presença feminina no cenário das ondas gigantes, colocou a Bahia em evidência em um dos picos mais emblemáticos do planeta e abriu caminho simbólico para novas gerações que sonham em ocupar o mar com coragem e propósito.


F.IB

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