O assassinato dos estudantes Alberto Fontes Gonçalves Júnior, de 17 anos, e Júlia Ferraz Cavalcante, de 16, em novembro de 2000, permanece como um dos episódios mais violentos e marcantes da história do litoral norte da Bahia. O casal desapareceu na tarde do dia 18, após participar de uma confraternização em uma casa de veraneio no Condomínio Vale da Landirana, próximo a Barra do Jacuípe.
Os dois só foram encontrados cinco dias depois, sem vida, em um manguezal de difícil acesso. O que começou como um desaparecimento sem qualquer pista evoluiu para uma investigação complexa, marcada por lacunas, suspeitas múltiplas, confissões contraditórias e, ao final, a revelação de um crime cometido com extrema brutalidade.
Desaparecimento
Na tarde do dia 18 de novembro, Alberto e Júlia chegaram ao local da festa por volta das 14h30, acompanhados de amigos. O encontro reunia estudantes em comemoração ao fim do ano letivo e transcorria sem qualquer anormalidade. Em determinado momento, no entanto, o casal decidiu se adiantar e seguir até a praia antes dos demais colegas, percorrendo um trajeto que incluía a travessia de um trecho do Rio Jacuípe, considerado raso e de baixo risco. A decisão foi o último registro conhecido dos dois.
A ausência deles só foi percebida horas depois, já no início da noite, quando os colegas se preparavam para retornar a Salvador. O sumiço causou preocupação e, em seguida, desespero. Um dos amigos que acompanhou as primeiras buscas descreveu o momento em que o grupo percebeu que algo estava errado: “Na hora da partida é que todo mundo percebeu a falta deles e pintou o desespero”, ao CORREIO, na época.
A falta de qualquer sinal concreto — pegadas, roupas, objetos ou testemunhas — aumentava a tensão. Entre os colegas, a hipótese de um acidente não parecia convincente, especialmente diante de circunstâncias consideradas seguras. “Nós também não acreditamos em afogamento... Nem os tamancos dela foram encontrados”, relataram, apontando para o caráter atípico do desaparecimento.
Buscas intensas e ausência de respostas
Diante do sumiço, uma força-tarefa foi mobilizada ainda na noite do sábado, envolvendo equipes do Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Polícia Civil. Ao longo dos dias seguintes, a região foi submetida a uma varredura extensa, que incluiu o uso de embarcações para percorrer o rio, cães farejadores para rastrear possíveis trilhas e até helicópteros para sobrevoar áreas de difícil acesso.
Apesar da mobilização, os esforços não produziram resultados imediatos. Com o passar das horas e dias, a expectativa de encontrar os jovens com vida diminuía, enquanto crescia a pressão sobre a polícia para apresentar respostas. Paralelamente, familiares enfrentavam momentos de angústia intensificada por episódios inexplicáveis, como ligações telefônicas anônimas recebidas na casa de Júlia, nas quais ninguém falava.
A descoberta no manguezal
O desfecho das buscas ocorreu só na manhã do dia 23 de novembro [cindo dias depois], quando os corpos de Alberto e Júlia foram localizados em um manguezal às margens do Rio Capivara, afluente do Jacuípe. A área, isolada e de difícil acesso, exigiu uma operação complexa para a chegada das equipes, que precisaram atravessar trechos de água e abrir caminho em meio à vegetação densa.
A cena encontrada era marcada por sinais evidentes de violência. Os corpos estavam em avançado estado de decomposição, parcialmente cobertos pela lama do mangue, o que dificultou a análise inicial. Júlia foi localizada com as mãos amarradas para trás, um indício claro de que havia sido imobilizada antes da morte. Poucas horas depois, os laudos iniciais confirmaram a suspeita mais grave: ambos haviam sido assassinados a facadas, descartando definitivamente qualquer hipótese de acidente.
Cepacol. Mãozinha e Marquinhos foram presos por crime
Surgimento de suspeitos e contradições
Mesmo antes da localização dos corpos, a polícia já havia iniciado a análise de possíveis suspeitos, com base em informações da região e antecedentes criminais. Um dos primeiros a ser detido para averiguação foi Marcos Souza Santos, o ‘Marquinhos’ que possuía histórico de crimes sexuais e chamou atenção pelo comportamento considerado suspeito, incluindo uma tentativa de fuga ao tomar conhecimento do caso. Ele foi preso no dia 22 de novembro, quatro dias após o crime.
Com o avanço das investigações, outro nome ganhou destaque: Edmilson da Hora Ferreira, conhecido como “Mãozinha”, apontado como indivíduo com diversas passagens por estupro e ameaças. Ao ser localizado, em 26 de novembro, ele apresentou um álibi que, após verificação, não se sustentou. A polícia confrontou sua versão com depoimentos de testemunhas e encontrou inconsistências significativas. Segundo os investigadores, “todas as pessoas com quem ele alega ter estado... desmentiram seu depoimento”, o que reforçou as suspeitas sobre seu envolvimento.
Paralelamente, surgia a figura de um terceiro suspeito, Celso Antônio Santos Souza, o “Cepacol”, que permaneceu foragido por dois meses, contribuindo para a hipótese de que o crime havia sido cometido por mais de uma pessoa.
Confissão e reviravolta no caso
A investigação ganhou novo rumo em janeiro de 2001, quando “Cepacol” foi localizado e preso. Segundo a polícia, ele confessou participação no crime e apontou diretamente os outros dois suspeitos como coautores. A partir desse momento, o caso passou a ser tratado oficialmente como um duplo homicídio praticado em grupo.
Confrontados com a nova versão e com os elementos reunidos durante a investigação, Marcos e Edmilson acabaram admitindo envolvimento, ainda que com tentativas de minimizar suas responsabilidades individuais. De acordo com a polícia, os três acusados “revelaram com riqueza de detalhes tudo o que aconteceu”, permitindo a reconstrução da dinâmica do crime.
Os relatos indicaram que o grupo, sob efeito de álcool e drogas, circulava pela região quando avistou o casal. A abordagem teria sido motivada inicialmente por intenção de violência sexual, evoluindo para um crime de extrema brutalidade.
Reconstituição do crime mostrou detalhes da ação dos presos
Reconstituição expõe violência e frieza
A reconstituição do crime, realizada posteriormente, consolidou a versão apresentada pelos investigadores e revelou detalhes ainda mais perturbadores. Durante o procedimento, os acusados refizeram o trajeto percorrido e demonstraram como abordaram e imobilizaram as vítimas.
Mãozinha apontado como líder do grupo, assumiu protagonismo nos relatos e descreveu sua atuação com frieza. Os três acabaram contribuindo para a conclusão de que Mãozinha teria liderado o crime, sendo responsável por atacar, estuprar e matar Júlia.
Em relação a Alberto, as versões variavam, evidenciando contradições entre os envolvidos. Em determinados momentos, Mãozinha assumia participação direta; em outros, tentava transferir a responsabilidade. Marquinhos, por sua vez, alternava entre detalhar o crime e negar envolvimento.
O comportamento dos acusados durante a reconstituição chamou atenção pela instabilidade e, em alguns momentos, pela frieza.
Um caso que marcou a memória da Bahia
O duplo homicídio de Alberto e Júlia se consolidou como um dos episódios mais chocantes da Bahia no início dos anos 2000. A combinação de desaparecimento sem pistas, violência extrema, atuação em grupo e contradições nos depoimentos transformou o caso em um marco na memória coletiva.
Mais do que a brutalidade em si, o crime evidenciou a vulnerabilidade de vítimas em contextos aparentemente seguros e expôs as dificuldades enfrentadas pelas investigações diante da ausência inicial de vestígios. Décadas depois, o caso ainda é lembrado como símbolo de uma tragédia que interrompeu duas vidas jovens e deixou marcas profundas na história da violência no estado.
CORREIO

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